sábado, 20 de dezembro de 2014

O preto é o novo branco

Lembro-me ocasionalmente do Verão quando por vezes te encaro pelas ruas silenciosas e ao mesmo tempo tão preenchidas por vozes que comentam cada detalhe da nossa existência. Nossa existência. Como se de certa forma ainda tivesse em mim o privilégio ou a ousadia de nos englobar no mesmo sitio, nem que seja em termos gramaticais. Julgo que a minha teimosia ou intimo de mulher não queira assimilar na totalidade o vazio que deixaste no meu Outono. 
Lembro-me ocasionalmente de todos os tecidos coloridos e esvoaçantes que possuía em mim numa vida que agora encaro com longínqua, levemente preenchida por uma névoa que me diz que talvez nada do que julgo carregar em mim tenha sido de facto real. Talvez as cervejas geladas que bebemos entre sorrisos e gargalhadas histéricas e toda a areia branca que nos tocou a pele tenha sido invenção, talvez a vibração das músicas agitadas ou o calor que percorria o nosso corpo nas lentas tenha sido um efeito visual da curta metragem que foi o nosso verão. 
Talvez as juras tenham sido levadas pela chuva e o preto melancólico que se atravessa nos nossos caminhos seja o novo branco. 
Talvez o Outono tenha silenciado de vez aquilo que certo dia foi a nossa existência.

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