sábado, 20 de dezembro de 2014

Três passos para o fim, quatro para o recomeço

O cigarro já não arde com tanta intensidade, o sol já não brilha da mesma maneira. Chamam a isto o recomeçar de um novo ciclo, o recomeçar de uma nova etapa que te permite apagar levemente tudo aquilo que deixaste para trás e queres esquecer. As dores vão continuar em peso no teu coração, assim como as incertezas e as mudanças de espírito, mas as alegrias? Essas vieram para atenuar tudo aquilo que de negro se foi pintando nos últimos tempos.
Perdemos tanto tempo a viver este cenário que nem nos demos conta das coisas maravilhosas que aconteciam do outro lado da janela, mais um ano passou numa intensidade extrema. Perdemos as festas, as loucuras e deixámos os copos vazios, na nossa mão tudo ardeu à velocidade da luz.
Mesmo que não tenham sido feitas as mudanças necessárias para começar verdadeiramente do zero, descansa, nem tudo pode ser apagado. A tua personalidade não pode ser modificada, e nem todos os rebeldes podem ser silenciados.
Resta-nos começar a viver onde parámos.

Palavras de liberdade

Não te guies pela sabedoria escolar, os livros não passam disso mesmo, páginas repletas de informação comprovada cientificamente mais jamais genuinamente sentida.
A verdadeira sabedoria está no asfalto das ruas, nos rostos cansados e enrugados daqueles que nelas viveram. Está em todos aqueles aos quais a vida não quis dar voz, a todos aqueles a quem ela incutiu o silêncio e roubou as oportunidades. Médicos, advogados, meras personagens. Conversa com o vizinho de rosto apagado ou com o mendigo da praça pública, aprende o que de facto é viver e todas as loucuras e dificuldades que vêm incutidas com essa palavra.
Não desprezes aqueles que não trouxeram de bagagem um brilhante plano que passava por possuir um papel formalmente dirigido a um dos milhares de nomes que ninguém lê com atenção, não te sintas feliz por possuir escrita nesse mesmo papel a palavra “licenciado”. No final, a verdadeira felicidade vem com a verdadeira sabedoria, e essa tu só a encontras no lado negro e difícil das coisas, sabedoria de rua, sabedoria de quem foi obrigado a saber mais do que aquilo que pediu nas manhãs de natal. 
Rasga os livros, os cadernos e todos esses objectos de cegueira intelectual, aprende o que é real e não o que te é imposto, olha nos olhos de quem te fala e riposta. Saber é poder, e as palavras são a maior arma existente. 

O preto é o novo branco

Lembro-me ocasionalmente do Verão quando por vezes te encaro pelas ruas silenciosas e ao mesmo tempo tão preenchidas por vozes que comentam cada detalhe da nossa existência. Nossa existência. Como se de certa forma ainda tivesse em mim o privilégio ou a ousadia de nos englobar no mesmo sitio, nem que seja em termos gramaticais. Julgo que a minha teimosia ou intimo de mulher não queira assimilar na totalidade o vazio que deixaste no meu Outono. 
Lembro-me ocasionalmente de todos os tecidos coloridos e esvoaçantes que possuía em mim numa vida que agora encaro com longínqua, levemente preenchida por uma névoa que me diz que talvez nada do que julgo carregar em mim tenha sido de facto real. Talvez as cervejas geladas que bebemos entre sorrisos e gargalhadas histéricas e toda a areia branca que nos tocou a pele tenha sido invenção, talvez a vibração das músicas agitadas ou o calor que percorria o nosso corpo nas lentas tenha sido um efeito visual da curta metragem que foi o nosso verão. 
Talvez as juras tenham sido levadas pela chuva e o preto melancólico que se atravessa nos nossos caminhos seja o novo branco. 
Talvez o Outono tenha silenciado de vez aquilo que certo dia foi a nossa existência.